O Programa Fome Zero
é um programa do Governo Federal que visa garantir a segurança
alimentar da população brasileira. O Fome Zero foi criado para
combater a fome e as causas estruturais que geram a exclusão social.
Garantir a segurança alimentar significa garantir as condições
para que todas as famílias tenham condições de se alimentar
dignamente e de forma permanente, com quantidade e qualidade
adequadas. O Fome Zero é amparado pelo Conselho Nacional de
Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que tem caráter
consultivo e é um instrumento de articulação entre governo e
sociedade civil na proposição de diretrizes para políticas e ações
na área da alimentação e nutrição. O Conselho vai estabelecer um
diálogo permanente entre o Ministério de Segurança Alimentar e
Combate à Fome, os demais ministérios e a sociedade para a
definição de prioridades.
Ao todo são 62
conselheiros – 13 ministros de Estado, 11 observadores e 38
personalidades da sociedade organizada – nomeados pelo Presidente
da República, com mandato até meados de 2004. Estudo recente,
desenvolvido pelo Instituto da Cidadania, estima que, em 1999, havia
cerca de 44 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza,
sujeitos à fome. Entre estes, os grupos sociais mais freqüentes são
pequenos agricultores, trabalhadores domésticos, trabalhadores sem
carteira assinada e desempregados. A estimativa do Instituto mostra
ainda que 9% dessas pessoas estão na Região Norte, 50% na Região
Nordeste, 26% na Região Sudeste, 10% na Região Sul e 6% na Região
Centro-Oeste.
O estudo mostra
também que 20% dos mais pobres do país vivem nas áreas
metropolitanas, 45% nas áreas urbanas não metropolitanas e 34% nas
áreas rurais. Há componentes específicos que clamam pela
necessidade de um programa específico de garantia da segurança
alimentar. Em primeiro lugar, porque a alimentação é um direito
básico de cidadania. O Estado deve garantir, no mínimo, condições
para que as famílias se alimentem dignamente. Este é o compromisso
ao Direito Humano à Alimentação. Outro aspecto fundamental é que
a fome é conseqüência da pobreza, mas também é sua causadora. A
fome prejudica a capacidade de aprendizado das crianças, reduz a
produtividade de adultos ativos, faz com que as pessoas fiquem mais
suscetíveis a doenças e provoca a morte prematura, perpetuando a
pobreza e impedindo o crescimento econômico. A fome passa de uma
geração para outra, no momento em que mães desnutridas concebem
filhos com peso abaixo do normal.
Histórico do
combate à fome no Brasil
Não é a primeira
vez que um governo mostra preocupação em combater a fome no Brasil.
A ação pioneira
nesse sentido ocorreu ainda no século XIX para enfrentar os efeitos
da seca de 1877/89 que assolou o Nordeste e foi responsável por mais
de 500 mil mortes. Nessa época havia o discurso de que o atraso do
Nordeste decorria da escassez e má distribuição das chuvas,
aliadas ao descaso do governo central. Assim, o problema estaria
resolvido quando o Estado nacional fortalecesse, economicamente, a
região, no sentido de minimizar os efeitos da estiagem sobre a
população. As primeiras ações do governo não se restringiram
apenas a doação de alimentos, mas também à construção de obras
como poços, açudes, ferrovias e rodovias, que deveriam dotar a
região de uma infra-estrutura e, ao mesmo tempo, gerar emprego.
Também no rol das medidas propostas no século passado, estava a
construção de um grande canal – o São Francisco/Jaguaribe –
que transportaria a água do Rio São Francisco para o semi-árido
cearense. A fome nunca foi aceita pelas elites como obra de um autor
implacável: a desigualdade social. A subalimentação resultaria da
pouca disposição para o trabalho e da inferioridade mental e
genética típica de uma certa miscigenação tropical.
O erro, portanto,
não estava na sociedade e sim nas “raças inferiores”. Os
famintos eram a causa da fome. Durante o regime militar (1964-85),
censurava-se o termo fome, substituído por “desnutrição”. Nos
anos 1930, com o avanço da urbanização e as mudanças impostas por
uma economia que deixava de ser apenas agrícola para se
industrializar, massas pobres invadiram a cena política brasileira.
Sindicatos, estudiosos e forças partidárias passam a vocalizar uma
outra interpretação para o desafio da miséria e do acesso ao
alimento.
A emergência das
massas urbanas, a politização da questão social e a crise de
desemprego que sucedeu ao crack de 1929, bem como os riscos de
desabastecimento trazidos pela II Guerra Mundial levam Getúlio
Vargas, em 1940, a criar o salário mínimo, com o objetivo de
assegurar uma cesta básica que cubra as necessidades nutritivas do
trabalhador acordo com as especificidades regionais.
Não ter fome,
portanto, torna-se um conquista constitucional. Ainda em 1940, Vargas
cria o Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS),
visando garantir alimentação digna e barata à emergente
mão-de-obra industrial através da implantação de uma rede pública
de restaurantes populares nos grandes centros. Nos anos 60, o debate
sobre a fome seria enriquecido pelas discussões em torno das
Reformas de Base propostas pela presidência de João Goulart, mas o
processo de compreensão do país e de equação de seus gargalos foi
abortado com o golpe de abril de 1964. A construção de um projeto
de desenvolvimento nacional foi interrompida. A fome foi reconduzida
ao arquivo dos temas proibidos. O SAPS foi extinto em 1967, pela
ditadura militar. Fecharam-se vários restaurantes populares, sob a
alegação de que haviam se transformado em espaços de discussão e
efervescência política. Penalizava-se, desse modo, a população
mais carente.
O projeto só viria
a retornar quase 30 anos depois, na década de 80, ao final da
ditadura. A ditadura reduziu a ação do Estado à distribuição
pontual de cestas e à ajuda emergencial, muitas vezes composta de
excedentes de safra de países ricos, em especial dos EUA. Em 1986,
após o fim do regime militar e com o agravamento da inflação e da
carestia, ensaiou-se uma retomada das políticas públicas.
Destaca-se aí o Programa Nacional de Leite para Crianças Carentes,
mais conhecido como o Tíquete do Leite, do Presidente José Sarney.
Em que pesem denúncias de desvios, o projeto contribuiu para pelo
menos não agravar mais a fome no país. Com a eleição de Fernando
Collor, o programa foi extinto em 1991, verificando-se um novo e
drástico retrocesso: o Estado, dentro das concepções neoliberais,
abdica de qualquer responsabilidade pela sorte das populações
carentes. Estampada nas ruas, mas ignorada pelo Estado, a miséria
choca e violenta a sociedade. Em 1993, surgem em todo o país comitês
de Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida,
popularizados como "Campanha contra a Fome", e liderados
por Herbert de Souza, o “Betinho". O governo FHC, com o Plano
Real, em seu primeiro mandato (1994-98), também se eximiu do combate
mais ostensivo à fome.
No segundo mandato,
com as gritantes perdas sociais vindas com o neoliberalismo, o
governo do PSDB cria o programa Comunidade Solidária, que poucos
efeitos produziu.
Com Lula, portanto,
o Estado assume uma postura clara e direta de combater a fome, sem
esperar pelo mercado. A diretriz do Fome Zero é introduzir na lógica
de reprodução da economia recursos e parâmetros que permitam ao
país crescer combatendo a pobreza, sem esperar que o crescimento
faça justiça por geração espontânea.
Ação
Por sua própria
abrangência, essa é uma luta de longo prazo, mas que será
alicerçada nos próximos quatro anos. O governo espera, já em 2003,
ter 3 milhões de famílias incorporadas ao conjunto de políticas
previstas no programa. O Fundo de Combate à Fome e Erradicação da
Pobreza tem orçamento em 2003 de R$ 5 bilhões, divididos em vários
programas. Está previsto, para o Cartão-Alimentação, um montante
de R$ 1,8 bilhão em 2003 (R$ 50 por família), a serem distribuídos,
a partir de agosto, em 1.000 municípios. No Ceará, 80 a 100
municípios serão incluídos. Serão criados os Conselhos Estaduais
e Municipais de Segurança Alimentar, que deverão ser responsáveis
pelo gerenciamento dos recursos, que serão pagos pelas agências da
CEF, agências lotéricas ou dos Correios.
A criação do
Ministério Extraordinário da Segurança Alimentar e Combate à Fome
(MESA) reflete a disposição de atingir esse objetivo com
iniciativas distribuídas em três eixos: o emergencial que inclui
ações redistributivas imediatas destinadas a segmentos e regiões
mergulhados em fome aguda; o mutirão cívico, voltado para fomentar
restabelecimento dos laços sociais e a mobilização solidária da
sociedade civil; e o estrutural e local, a ser implementado em
conjunto com diversos ministérios, governos estaduais, municipais e
que abarca desde a reforma agrária, apoio à agricultura familiar,
construção de cisternas e açudes, combate ao analfabetismo,
reforma de moradias, bancos de alimentos e restaurantes populares,
entre outras políticas. 1. políticas estruturais voltadas para as
causas profundas da fome e da pobreza;
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