quarta-feira, 29 de abril de 2015

Max Weber, sua história, seu tempo e sua contribuição sociológica


As transformações sociais e econômicas do século XVII e XVIII vivenciadas em todo o continente europeu influenciaram as preocupações intelectuais de Max Weber. A Alemanha teve o desenvolvimento capitalista e intelectual diferente do restante da Europa, enquanto França e Itália vivenciavam as revoluções burguesas republicanas e industriais a Alemanha permanecia monárquica e agrária.
As sociedades modernas eram formadas a partir de uma profunda diversidade social, o restante do continente europeu em suas teorias políticas, econômicas e sociais buscava a universalidade através dos nacionalismos, do positivismo em relação ao progresso técnico e científico proporcionado pelo sistema capitalista industrial. Já os alemães apresentavam um amplo interesse pela História particular de cada povo e pela diversidade. O pensamento alemão pode ser sintetizado na associação entre História, esforço interpretativo e facilidade em discernir diversidades.
Nesse sentido, a sociedade é analisada sob uma perspectiva histórica e nesse ponto apresentam-se as divergências entre Max Weber e Émile Durkheim, isto é, entre Positivismo e idealismo, cuja principal diferença está em como cada um encara a História.
O Positivismo possui a idéia de lei geral e História universal – excluí as particularidades de cada povo e delimita um território formando um Estado-Nação – e compara uma formação social com outra: Para eles, a História é um processo universal de evolução da sociedade, ou seja, todos os povos de todos os continentes possuem uma História única, linear, apenas em estágios diferentes percebidos pelo método comparativo.
Os Idealistas, por sua vez, corrente filosófica de Max Weber, defendem a pesquisa histórica, baseada na coleta de documentos e no esforço interpretativo das fontes. As diferenças sociais em cada território ou de uma nação para outra, apresentam-se como de gênese (origem) e formação, portanto de História, não de estágios de evolução. A perspectiva respeita o caráter particular e específico de cada formação social e histórica.
Max Weber combina a perspectiva histórica de respeito às particularidades e à Sociologia que ressalta os elementos mais gerais de cada fase do processo.
Para ele, a sucessão de fatos não faz sentido por si só, os dados são esparsos e fragmentados.
Propõe então o Método Compreensivo que é o esforço interpretativo do passado e sua repercussão no momento presente. Assim, o conhecimento histórico é formado a partir da busca de evidências, onde o método permite ao cientista dar sentido social e histórico aos fatos separados, fragmentados.

1. Um pouco de biografia

Max Weber nasceu em Erfurt cidade da Alemanha em 21 de Abril de 1864 e pertenceu a uma família de classe média com bastante influência política e econômica. Sua mãe, Helene Fallenstein Weber, mulher culta e liberal, de credo protestante, tornou-se uma marcante personagem na vida do filho, pois até 1919 trocavam cartas com grande erudição muito frequentemente. Foi também na casa dos pais que Max Weber conheceu importantes pensadores do século XIX que frequentavam as reuniões promovidas por eles.
Até os dezessete estudou de forma relapsa, sem grandes esforços, mas era reconhecido como possuidor de um talento excepcional. Mesmo depois que entrou para a universidade de Direito, Weber passava boa parte do tempo a embriagar-se em círculos de fraternidades. Estudou matérias culturais como História, Economia e Filosofia. Interrompeu a faculdade para ingressar no serviço militar, onde pesou o esforço físico e a ausência da atividade intelectual. Passou um ano fazendo serviço militar e retornou à universidade.
Ao concluir o curso, foi trabalhar nos tribunais de Berlim, depois reingressou na universidade para os cursos de Direito Comercial, Alemão e Romano, onde defendeu sua tese de doutorado.
Casou-se com Marianne Schnitger, sua prima, em 1893 e passou a trabalhar como professor em Berlim e exercia uma série de trabalhos relacionados ao Direito. Nos anos seguintes foi aceito à cátedra[2] de Economia na universidade de Friburgo, depois em Heidelberg, onde conviveu com seus ex-professores e onde criou um círculo de amizade bastante fértil intelectualmente.
A partir de 1887 Max Weber começou a apresentar um quadro patológico de doença mental, passando por diversas internações em centros de reabilitação
e a realizar viagens em busca de repouso e tratamento. Em uma de suas viagens, publica parte de sua obra sobre A ética protestante e o espírito do Capitalismo. Foi na viagem para os Estados Unidos da América que passou a se interessar sobre a questão do trabalho, da imigração e de administração pública.
Ao retornar para seus trabalhos na Alemanha, concluiu a segunda parte de A ética protestante e o espírito do capitalismo e em seguida, com a Revolução Russa, acompanhou os acontecimentos pela imprensa russa e os analisava para situá-los na história cotidiana. Tal atividade lhe rendeu a publicação de diversos ensaios sobre a Rússia e o conhecimento autodidata da língua.
Em 1903 Weber funda com Werner Sombart a revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozislpolitik e em 1908 ajuda a organizar a Associação Alemã de Sociologia, onde estimulou pesquisas coletivas sobre associações voluntárias, ligas atléticas, seitas religiosas e partidos políticos. Propôs estudos sobre a imprensa e sobre psicologia industrial.
Com a Primeira Guerra Mundial, aos cinqüenta anos, tornou-se oficial da reserva comissionado como administrador de nove hospitais em Heidelberg. De onde vivenciou um conceito central em sua Sociologia: a burocracia.
Em 1918 Max Weber deixa suas convicções monarquistas e torna-se um republicano, por acreditar que esse regime seja mais racional. Recebeu convite de várias universidades nacionais e estrangeiras, aceitando ficar, em 1919 em Munique. Nesse mesmo ano adoeceu, sendo diagnosticado com uma pneumonia aguda levando-o à morte em Junho de 1920.

Suas principais obras:

Do curso da História Alemã (1877)
A História agrária romana e seu significado para o Direito Público e Privado (1889)
História das instituições agrárias (1891)
As tendências na evolução da situação dos trabalhadores rurais na Alemanha Oriental (1894)
As causas sociais da decadência da civilização antiga (1895)
A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904, 1905, 1906-1908)
As relações de produção na agricultura do mundo antigo (1909)
Economia e Sociedade (1910-1914)
Ensaio acerca de algumas categorias da Sociologia compreensiva (1912)
A ética econômica das religiões universais (1914)
A política como vocação (1918)
A ciência como vocação (1918)
Ensaio sobre o sentido da neutralidade axiológica nas Ciências Sociológicas e Econômicas (1918)

2. Principais Conceitos Weberianos

2.1 Ação Social: uma ação com sentido

Por Ação Social entende-se a conduta humana (ato, omissão, permissão) dotada de sentido, ou seja, de uma justificativa elaborada subjetivamente, isto é, um significado subjetivo dado de forma racional ou irracional por quem o executa, o qual orienta seu próprio comportamento, tendo em vista a ação – passada, presente ou futura – de outro ou outros.
O indivíduo é o agente social que dá sentido à sua ação, o sentido é compreendido através da análise do MOTIVO que leva a pessoa à ação, mas seus efeitos muitas vezes escapam ao controle e previsão do agente. É pelo motivo que se desvenda o sentido da ação e a motivação é formulada expressamente pelo agente ou está implícito em sua conduta.
O motivo da ação pode ser de três tipos:
I. Dado pela tradição
II. Dado por interesses racionais
III. Dado pela emotividade
Então, tem sentido social toda ação que leva em conta a resposta ou a reação de outros indivíduos e é a interdependência entre os sentidos das diversas ações que dá o caráter social da ação. A tarefa do cientista é descobrir os possíveis sentidos das ações em todas as suas conseqüências.
Ex.: Enviar uma carta – ato composto de uma série de ações sociais com sentido
Escrever, selar, enviar e receber – ações com uma finalidade objetiva;
Atores, agentes se relacionam nessa ação com orientação de motivos diversos: enviar a carta, ser o atendente no posto dos correios, o carteiro, o destinatário.
Essa interdependência entre os diversos motivos que torna a ação social.
O sentido da ação é produzido pelo indivíduo através dos valores sociais que ele compartilha e do motivo que emprega. Prever todas as conseqüências da ação escapa ao indivíduo e é papel do cientista, a quem cabe explicar, isto é, captar e interpretar as conexões de sentido inclusas numa ação.
A conexão entre motivo e ações sociais revela as diversas instâncias da ação social: política, econômica ou religiosa.
As ações variam em grau de racionalidade: à medida que se afastam dos costumes e afetos elas são mais racionais.

Max Weber elaborou um quadro de tipos “puros” de ação social:
I. Ação racional com relação a fins;
II. Ação racional com relação a valores;
III. Ação tradicional;
IV. Ação afetiva.
Ação racional com relação a fins: Para atingir um objetivo previamente definido, lança-se mão de meios necessários ou adequados, ambos combinados e avaliados tão claramente quanto possível de seu próprio ponto de vista. É uma ação evidente, chegar ao objetivo pretendido recorrendo aos meios disponíveis.
Erros e afetos desviam o curso da racionalidade.
Ação racional com relação a valores: Ação que visa um objetivo, mas agindo de acordo com ou a serviço de suas próprias convicções, levando em conta somente a fidelidade a certos valores que inspiram sua conduta. O sentido da ação não está no resultado ou nas conseqüências, mas na própria conduta.
Ação irracional afetiva: A ação é inspirada em suas emoções imediatas sem considerar os meios ou os fins a atingir.
A ação afetiva deve ser diferenciada da ação com relação a valores, para evitar confusões, pois a primeira não se preocupa com os fins a serem alcançados, muito menos com os meios utilizados para se chegar a qualquer fim, ela tem uma razão em si mesma. Já em relação aos valores, o agente da ação elabora racionalmente e conscientemente onde e como chegar aonde se quer.
Ação tradicional: baseia-se nos hábitos e costumes.
Determinadas ações sociais se manifestam com mais freqüência que outras o quê permite ao cientista perceber tendências gerais que levam os indivíduos, em dada sociedade, a agir de determinado modo.
Interpretar a ação social é observar suas regularidades expressas nos usos, costumes e situações de interesse.
2.2 Relação Social
Ação é diferente de relação social, pois nesta o sentido precisa ser compartilhado. Um exemplo: pedir informação – o indivíduo faz uma ação social, pois tem um motivo e age em relação a outro, mas o motivo não é compartilhado.
Um exemplo de relação social: Sala de aula – estabelece uma relação social onde o objetivo é compartilhado por todos os envolvidos.
Relação social é então uma ação social cujo sentido é compartilhado pelas pessoas envolvidas na ação. É a conduta de várias pessoas orientada, dotada de conteúdos significativos, que descansam na probabilidade de que se agirá socialmente de certo modo.
Ao envolver-se em uma relação, tem-se por referência certas expectativas da conduta do(s) outro(s). As Relações sociais estão inseridas em e reguladas por expectativas recíprocas quanto ao seu significado, são ações que incluam uma mútua referência.
Weber chega à conclusão de que não existe oposição entre indivíduo e sociedade, pois quanto mais racional uma relação mais facilmente ela se traduz em normas e uma norma para se tornar concreta, primeiro se manifesta nos indivíduos como motivação.

2.3 O Tipo Ideal

Max Weber é um estudioso do próprio processo de pesquisa social, ele observa que ao se estudar um determinado fenômeno, o objeto de estudo, aborda-se apenas um fragmento finito da realidade. O cientista deve compreender uma individualidade sociocultural formada de componentes historicamente agrupados, nem sempre quantificáveis, a partir da análise
histórica para explicar o presente e então partir deste para avaliar as perspectivas futuras.
O que dará a validez científica a uma pesquisa é o método e os conceitos que o estudioso utiliza. Assim, é o instrumento que orienta o cientista social em sua busca de conexões causais, no caso de Weber, o tipo ideal.
O tipo ideal é um trabalho teórico indutivo com o objetivo de sintetizar o que é essencial na diversidade social. Permite conceituar fenômenos e formações sociais e identificar e comparar na realidade observada suas manifestações. Os diversos exemplos mantém com o tipo ideal grande semelhança e afinidade. Ele permite comparações e a percepção de semelhanças e diferenças.
Ele é então um instrumento de análise, um modelo acentuado do que é característico ou fundante no estudo. É uma construção teórica abstrata utilizada pelo cientista ao longo do seu processo de pesquisa. Três características definem os limites e as possibilidades do tipo ideal:
Racionalidade: escolha de características do objeto relacionadas de modo racional;
Unilateralidade: a escolha racional acentua unilateralmente os traços considerados mais relevantes;
Caráter utópico: não é, nem pretende ser, um reflexo ou repetição da realidade.
O tipo ideal é a construção de um modelo para permitir a comparação entre o este e a realidade empírica, observável.

3. A tarefa do cientista

O cientista, como todo indivíduo em ação, age guiado por seus motivos, sua cultura e suas tradições. Isto indica que o cientista parte de sua subjetividade para realizar uma pesquisa social. Como então conciliar a parcialidade, necessária à pesquisa, e a subjetividade?
As preocupações do cientista orientam a seleção e a relação entre os elementos da realidade a ser analisada. Ao iniciar o estudo vem a busca da objetividade, a neutralidade é buscada para dificultar a defesa das crenças e das idéias pessoais e assim poder analisar o objeto de estudo a partir dos
nexos causais que ele apresenta e não daquilo que o estudioso queira encontrar.
Cabe ao cientista compreender, buscar os nexos causais que dêem o sentido da ação social, isto é, compreender que os acontecimentos começam nos indivíduos. Ao fazer isso, o pesquisador contribui para o conhecimento não do todo social, mas de uma parte dele, pois uma teoria é sempre uma explicação parcial da realidade. Assim, um acontecimento pode ter diversas causas: econômicas, políticas, religiosas e cada uma compõe um conjunto de aspectos da realidade que se manifesta nos atos dos indivíduos.
O que garante a cientificidade de uma explicação é o método de reflexão e os conceitos escolhidos para guiar a pesquisa, não a objetividade pura dos fatos. Sendo assim, a análise social envolve sempre qualidade, interpretação, subjetividade e compreensão.

4. A ética protestante e o espírito do capitalismo

Esse é o título de uma das principais obras de Max Weber, talvez tenha sido aquela que mais que trouxe fama e prestígio. Nela o autor buscava compreender a relação entre o protestantismo e um comportamento típico do capitalismo.
Weber foi motivado pela análise de dados estatísticos que evidenciaram a grande participação de protestantes entre os homens de negócio, entre os empregados bem-sucedidos e como mão-de-obra qualificada. A partir daí procurou observar a conexão entre a doutrina e a pregação protestante e seus efeitos no comportamento dos indivíduos.
A doutrina e as pregações mostraram a presença de valores protestantes tais como: Disciplina, poupança, austeridade, vocação, dever e propensão ao trabalho. Tais valores formaram a partir da Reforma Protestante no século XVI uma nova mentalidade – ethos – propício ao desenvolvimento do capitalismo.
Nesse trabalho, Max Weber expõe as relações entre religião e sociedade e desvenda particularidades do capitalismo:
A relação não se dá por meios institucionais; mas por intermédio de valores introjetados nos indivíduos e transformados em motivos da ação social.
Motivação prostestante: trabalho como dever, como vocação. Não visando o ganho material como o objetivo final.
Como consequência, os trabalhadores protestantes adaptavam com facilidade ao mercado de trabalho, também eles acumulavam capital já que a pregação de uma vida regada e sem usura era predominante. Ao acumularem capital faziam poupança ou criavam seus próprios negócios como reinvestimento produtivo.
A ação individual de cada protestante, com o motivo relacionado a valores vai além de sua intenção: Virtude e vocação; Renúncia aos prazeres materiais. Sofre impacto diretamente no meio social ao contribuir com as bases que promoveram o desenvolvimento capitalista.
Como cientista, Weber procurou estabelecer as conexões entre os motivos e os efeitos da ação no meio social. Percebeu que o Protestantismo possuía afinidade com o racionalismo econômico, enquanto o catolicismo difundia o ascetismo[3] contemplativo, isto é, um conjunto de valores mais para a meditação do que para a ação prática.
Weber procurou fazer a construção do tipo ideal de capitalismo ao estudar as diversas características das atividades econômicas em várias épocas e lugares e chegou ao seguinte resultado:
Capitalismo è organização econômica racional assentada no trabalho livre e orientada para um mercado real, não para a mera especulação ou rapinagem.

Características do sistema capitalista:

separação entre público e privado;
utilização técnica do conhecimento científico – ciência;
direito e administração racionalizados.
Esse e outros trabalhos de Max Weber situam-se na área da Sociologia da Religião e seu esforço intelectual consistiu em observar na esfera religiosa um conjunto de valores que conduziram à racionalização das condutas dos fiéis. Fenômeno fundamental para a transformação das práticas econômicas e para a constituição da estrutura das sociedades modernas.
Weber entende que cada religião constitui uma individualidade histórica, rica e complexa. Por isso seu objetivo era compreender as conseqüências práticas da
religiosidade para a conduta social e ao persegui-lo, notou que a religião pode fomentar o racionalismo prático e intensificar a racionalidade metódica, sistemática, do modo exterior de levar a vida.
Esse é um processo que ocorre ao nível da organização da comunidade e traduz-se ao nível das concepções de mundo. De um lado estão os virtuosos, tendo legitimada sua boa sorte. Os menos afortunados são apoiados pela criação do mito da salvação. No cristianismo construiu-se a figura do redentor, salvador, como uma explicação racional para a história da humanidade. A atitude religiosa ascética leva o virtuoso a submeter os impulsos naturais ao modo sistematizado de levar a vida. Mudança na comunidade religiosa que se desdobra num domínio racional do universo.

5. Visão geral de Max Weber

Weber mostrou a fecundidade da análise histórica e da compreensão qualitativa dos processos históricos e sociais e apontou a especificidade das ciências humanas: o homem como um ser diferente das demais espécies e então sujeito a leis de ação e comportamentos próprios.
Defendeu o indeterminismo histórico, isto é, reafirmando a não existência de leis preexistentes que regulem o desenvolvimento da sociedade ou a sucessão de tipos de organização social.
E contribuiu para a consolidação da Sociologia como ciência ao compor o método compreensivo e discutir a relação entre subjetividade e objetividade do trabalho de pesquisa, posicionando-o como um dos clássicos da Sociologia e um de seus mais proeminentes representante

terça-feira, 28 de abril de 2015

O que nos faz diferentes são as oportunidades


O nosso país tem uma grande divida com os Afrodescendente,e os nossos governantes nunca se preocupou com a situação do negro no brasil,pois nunca foram tratado com dignidade e respeito.Se analisarmos a forma em que foi assinada a lei Áurea,fica cloro , quando os Italianos chegaram ao Brasil além dos salários tinham terras para cultivar inclusive a primeira vinícola do Brasil era de imigrantes Italianos.Já os seres humanos que foram escravizados sairão com a trouxa na cabeça e as mãos vazia e foram morar em Quilombos e muitos votaram para as fazendas para trabalhar por um prato de comida. Hoje é duro ouvir a mídia criticar as políticas de reparação como as cotas para as universidades públicas,dizendo que agora há preconceito e quando só beneficiava os brancos não,e também da bolsa familia dizendo que incentiva as mulheres a terem mais filhos,porém pobre sempre tiveram muitos filhos e nada foi feito para mudar isso.O Brasil tem que investir em educação pública de qualidade,para que a desigualdade social diminua,todos os países que investiram em educação de qualidade estão no topo, o Brasil tem que qualificar as suas escolas e valorizar os seus docentes,precisamos de políticas pública voltada para as camadas mais pobres da nossa Nação.


Osvaldo Teles

domingo, 26 de abril de 2015

Desenvolvimento Sustentável ou Sustentabilidade

Hoje se fala com cada vez maior freqüência em Desenvolvimento Sustentável ou Sustentabilidade, entendida como um novo modo de pensar e realizar a produção, de tal maneira que se assegure por tempo indeterminado o atendimento das necessidades sociais, econômicas e ambientais do homem moderno. Cresce, de acordo com isso, a percepção de que é preciso explorar racionalmente os recursos naturais, especialmente os recursos esgotáveis, com o objetivo de garantir um meio ambiente saudável para a atual geração e a satisfação das necessidades de consumo das gerações futuras. Contudo, a percepção desse problema efetivamente significa uma mudança de paradigma em relação ao modo como a Modernidade se relaciona com a natureza?
A modernidade se caracteriza por um tipo de relação com a natureza que a separa do homem e cria entre os dois um espaço de distância decisivo. De um lado está o homem, ou sujeito, e de outro está o mundo, enquanto objeto a ser estudado ou explorado. Descartes, filósofo francês do século XVII, ilustra essa tendência ao chamar o homem de “senhor da Terra”, ao passo que Bacon, pensador inglês do mesmo século, afirma que o homem deve retirar, ainda que sob tortura, os segredos da natureza.
De acordo com isso, o mundo passa a ser entendido como algo que está à disposição dos interesses humanos, perspectiva muito própria à modernidade, visto que entre os homens primitivos a relação com a natureza era não de distância, mas de complementaridade. Com efeito, para os primitivos a natureza não está simplesmente à disposição do homem, nem o homem é entendido como um outro em relação ao mundo, mas ao contrário, é ele parte da natureza e dependente dela. Assim se entende os ritos religiosos que tinham como objetivo agradar a natureza e garantir que ela, por sua vez, permitisse ao homem sucesso em sua caça, pesca ou na colheita de alimentos.
A modernidade, porém, fortaleceu e desenvolveu uma perspectiva oposta, a qual tornou o homem o senhor do mundo e o seu explorador. A ciência deu a essa tendência um caráter racional e por conseqüência mais eficiente. A Revolução Industrial, por sua vez, utilizando-se do saber produzido cientificamente, organizou os mecanismos de exploração da natureza, aumentando ainda mais o poder de transformação do mundo do homem moderno.
Vivemos hoje as conseqüências dessa tendência exploratória moderna, que transformou todo o real – inclusive o próprio homem – em objeto de pesquisa ou matéria-prima para ser manipulada. Assim é, de fato, como o homem moderno entende o meio ambiente: como um reservatório de matéria-prima à disposição do estudo científico ou da exploração industrial. De acordo com isso, como lembra Heidegger, filósofo alemão contemporâneo, não é a indústria hidroelétrica que está instalada no rio, mas é o rio que está instalado na indústria hidroelétrica, isto é, todo o relacionamento com o mundo se dá a partir da ideia de que ele deve ser explorado para atender os interesses humanos.
Ora, não se pode explorar indefinidamente os recursos naturais. As conseqüências nocivas dessa exploração percebemos hoje com mais clareza, de onde surgiu a emergência do debate sobre desenvolvimento sustentável. Contudo, ao contrário do que parece à primeira vista, esse debate parece não mudar efetivamente o paradigma que sempre caracterizou a relação com a natureza na modernidade. De fato, quando se fala hoje em preservação ou proteção ambiental a perspectiva ainda é de exploração: com efeito, devemos preservar a natureza para continuar explorando-a pelo máximo de tempo possível.
Contudo, o desafio da contemporaneidade parece estar em outra direção. O que se deve é pensar em mecanismos que nos façam produzir menos, pois o planeta não suportará a universalização do padrão de consumo dos países ricos. Isso significa, na prática, repensar a relação do homem com o meio ambiente, e deixar vir à tona um relacionamento de efetivo respeito com a natureza.
Por fim, o desenvolvimento sustentável não deveria se concretizar em uma proteção que assegure a indefinida exploração ambiental, mas em um modo de exploração que seja efetivamente racional, que não produza o supérfluo, mas garanta o atendimento das reais necessidades humanas, dentro do limite suportável pela natureza.Na minha opinião uma mudança real e objetiva só acontecerá quando o homem verdadeiramente se sentir integrado ao planeta como um todo se sentido parte dele e não vendo as coisas como um foco separado, ou seja, como se a natureza que o cerca e seus interesses fossem coisas opostas ou não tivessem ligação, enquanto isto não acontecer seja qual for o discurso nos estaremos cada vez mais perto de deixar de existir como humanidade.

Desigualdade


A escravidão retrato a história de muitos seres humanos que foram transformado em escravos em todo mundo e até hoje continuam sendo discriminados e só falta o chicote e o tronco, e querem tratar os desiguais com igualdade e nos esquecemos os séculos que nos tiraram as oportunidades de irmos a escola, eu costumo dizer se meus pais tivessem oportunidade talvez a minha vida teria sido melhor,porem eles não tiveram um formação intelectual logo não poderia passar para mim, por eles não ter ido as escola diziam que não era preciso eu ir a escola e assim foram a maioria dos Afro-descendentes, logo percebemos e essa desigualdade no campo de trabalho, as mulheres negras são as mais prejudicadas pois na sua maioria estão no sub emprego, como por exemplo: elas trabalham como empregada doméstica em serviço gerais e na construção civil. Além da ocupação precária, as mulheres negras são vítimas de outra perversidade observada no mercado de trabalho: a baixa remuneração. O estudo revela, por exemplo, que seus rendimentos equivalem a 34% do rendimento obtido pelos homens não-negros, em Salvador, enquanto a relação menos desfavorável foi constatada na Grande Porto Alegre, onde o que elas recebem, em média, não supera 49% do ganho deles.
O quadro de desigualdade social registrado pelo levantamento tem raízes históricas. “A falta de políticas para a incorporação dos ex-escravos ao mercado de trabalho assalariado e a dificuldade de acesso aos serviços de educação e saúde colocaram essa população à margem dos progressos da sociedade brasileira, contribuindo para as origens da pobreza e da desigualdade enfrentadas pelos negros. Sendo assim a educação o meio de ruptura dos paradigmas da dominação, ela permite também a reflexão do indivíduos na sua condição humanas,e o desenvolvimento das relações de forças e dos mecanismos invisíveis que se estabelecem no corpo social.Na origem das extremas desigualdades raciais observadas no Brasil está o fato óbvio de que os africanos e muitos dos seus descendentes foram incorporados à sociedade brasileira na condição de escravos. A chamada “escravidão moderna” foi uma das formas mais radicais de exclusão econômica e social já inventada pelo homem.As desigualdades entre as raças observadas no Brasil de hoje nada mais são, portanto, que o resultado cumulativo das desvantagens iniciais transmitidas através das gerações. As políticas de “ação afirmativa” ou “discriminação positiva” são instrumentos de que a sociedade dispõe para compensar essas desvantagens impostas às vítimas da escravidão e seus descendentes, com o objetivo de colocá-los na mesma condição competitiva que os outros segmentos da sociedade. Numa linguagem bem direta, pode-se dizer que se trata apenas de “pagar os atrasados” ou de “recuperar o tempo perdido”. “Tratar desigualmente os desiguais para promover a igualdade"e muitos critica as politicas reparatória, seguindo o pensamento da classe dominante ou seja a elite não quer um povo pensante,e o que não temos hoje e fruto de um passado de exploração da força de trabalho sem remuneração de um formato escravagista desacerbado.

Osvaldo Teles

sábado, 25 de abril de 2015

O caso da menina Isabella

O caso da menina Isabella, de cinco anos, barbaramente assassinada na residência onde passava o fim de semana, vem comovendo a sociedade brasileira, principalmente pelo fato de seu pai e sua madrasta, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, terem sido considerados pela Polícia Técnica os principais suspeitos da ação criminosa. Independentemente de a Justiça os considerar ou não responsáveis pelo ato, após o devido processo, com direito à defesa e todos os recursos a ela inerentes, cabe refletir sobre a questão que emoldura essa tragédia: a violência familiar.
A morte da menina Isabella de Oliveira Nardoni, arremessada do sexto andar do Edifício London no distrito da Vila Guilherme, em São Paulo, na noite do dia 29 de março de 2008.1. O caso gerou grande repercussão no Brasil e Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, respectivamente pai e madrasta da criança, foram condenados por homicídio doloso triplamente qualificado (art. 121, § 2°, incisos III, IV e V), e vão cumprir pena de 31 anos, 1 mês e 10 dias, no caso dele, com agravantes pelo fato de Isabella ser sua descendente, e 26 anos e 8 meses de reclusão no caso de Anna Jatobá, ficando caracterizado como crime hediondo.2 3 A decisão foi proferida pelo Juiz Maurício Fossen, no Fórum de Santana em São Paulo.
Alexandre Nardoni separou-se de Ana Carolina quando Isabella tinha onze meses. Em acordo jurídico, foi definida pensão alimentícia mensal de 250 reais e o direito a duas visitas por mês, quinzenalmente.
Na época da morte, Alexandre Nardoni vivia com a madrasta da menina, Anna Carolina Trotta Peixoto Jatobá (nascida em 9 de novembro de 1983, natural de São Paulo).
No dia 18 de abril, o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são indiciados pela Polícia Civil no 9º DP, pelo assassinato da Isabella de Oliveira Nardoni, por homicídio, no dia em que a Isabella completaria seis anos de idade,38 pelo artigo 121 do Código Penal Brasileiro.
O caso de Isabella Nardoni se enquadra no ECA , violência contra a criança. A Constituição Brasileira (Art. 227) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90) tratam dessa questão com base no que há de mais avançado na Normativa Internacional nesse campo. Portanto, podemos concluir que o problema não está na legislação, mas nas ações das famílias.

Família como foco de intervenção(Adoção)

Falar sobre "família como foco de intervenção" exige não somente aprofundar a discussão sobre o que é uma família e como esta pode servir ou não como recurso em programas de intervenção, mas exige também a problematização de um elemento básico do processo de intervenção: a comunicação entre agentes de intervenção e a população alvo. Assim, neste trabalho, proponho sugerir, num primeiro momento, algumas pistas analíticas que podem nos ajudar a perceber dinâmicas familiares em grupos populares. Passo então a enfatizar a importância de uma teoria da prática, e as implicações metodológicas de uma análise centrada em "modos de vida". Finalmente, comento o olhar reflexivo -- um elemento fundamental do processo dialógico que permite a ESCUTA do "outro" em qualquer situação de intervenção. Será evidente, ao longo do texto, o quanto me inspirei no trabalho dos outros membros do painel, Ingrid Elsen e Jane Dytz, para travar esse diálogo entre a antropologia e as ciências da saúde.
1. Família X indivíduo
Elsen e Althoff (2004) colocam uma pergunta desafiadora para o trabalhador de saúde: qual a distinção entre as necessidades da família como coletividade e as necessidades dos indivíduos separados que compõem essa família. Paira a pergunta: será que não há elementos incompatíveis entre a saúde da família e a saúde dos membros individuais?
Sugiro, no entanto que, para responder essa pergunta, temos que primeiro saber como conceituar (até onde vai) "a família". Recorremos à reflexão de um antropólogo brasileiro, Luis Fernando Duarte (1994), para lançar a bola sobre esse assunto. Segundo ele, o valor "família" tem grande peso em todas as camadas da população brasileira. No entanto, significa coisas diferentes dependendo da categoria social. Enquanto, entre pessoas da elite, prevalece a família como linhagem (pessoas orgulhosas de seu patronímio) que mantêm entre elas um espírito corporativista, as camadas médias abraçam em espírito e em prática a família nuclear, identificada com a modernidade. Finalmente, aos grupos populares seria associada uma forma familiar ancorada nas atividades domésticas do dia-a-dia, e as redes de ajuda mútua.
Essa maneira de tentar associar certo modo de vida a determinada configuração familiar assume cor − agora num contexto diferente − na pesquisa da antropóloga norte-americana, Rayna Rapp (1992), na sua comparação de famílias brancas das camadas médias e famílias negras, principalmente pobres, dos Estados Unidos. Conforme essa pesquisadora, na ideologia altamente individualista das classes médias americanas, os parentes são assimilados à categoria de "amigos", de forma a poder eliminar os que não respeitam as regras da amizade. Dessa forma, os indivíduos com muitos problemas são afastados da convivência familiar, tal como uma perna gangrenada é cortada para manter a saúde do corpo. O filho perdulário é deserdado, o sobrinho doente é esquecido, a avó caduca é deixada numa instituição − tudo em nome do bom desenvolvimento e projeto de ascensão (isto é a "saúde") da família nuclear. A noção de família é reduzida à unidade linear − de pais para filhos − para evitar os riscos de dissipar recursos. Tudo é investido nos filhos, na sua educação, na sua carreira profissional.
As famílias negras e pobres que, por outro lado, vivem em condições de grande precariedade econômica, só conseguem sobreviver porque criam extensas redes de ajuda mútua. Não somente pais, mas também irmãos, tios, primos, ex-sogros, compadres e até amigos tornam-se membros pertinentes da rede familiar. Assim, não é incomum encontrar, na casa de uma mulher, além dela e dos filhos, uma diversidade de indivíduos: um primo, recém chegado do interior para procurar trabalho, dormindo no sofá, um pequeno sobrinho, cujos pais acabam de se separar, comendo na mesa da cozinha, etc... A dona de casa vai ajudar essas pessoas, por carinho, mas também porque sabe que em outra época, quando ela estava precisando de ajuda, eles − ou seus pais − ajudaram ela. A família aqui se estende horizontalmente, numa partilha constante, mesmo que nem sempre pacífica, de recursos.
Quando li essa descrição, não pude deixar de fazer uma aproximação entre as famílias negras norte-americanas descritas por Rapp e famílias em grupos populares brasileiros que eu encontrei durante minhas pesquisas de campo (Fonseca 2004). Lá também, os parcos recursos de qualquer núcleo familiar parecem ser constantemente drenados para pessoas necessitadas da família extensa. Lembro de Vanilda, uma amiga que ganha a vida como empregada doméstica, explicando por que nunca compra eletrodomésticos a vista, mesmo sabendo que a mercadoria seria muito mais barata assim. Não é, como poderia-se imaginar, que ela não sabe poupar dinheiro. Pelo contrário...
"Claudia", ela me explica, "Pense bem. Se eu tivesse dinheiro na poupança, como que ia resistir? Sempre tem, em algum lugar da família, um nené que está com pneumonia e precisa de remédio, ou um primo que se meteu em encrenca e vai ir preso se a gente não acha dinheiro para pagar o advogado. Sempre tem alguma coisa urgente acontecendo e, nesse caso, como que eu ia guardar o dinheiro para mim? Se eu não comprasse a máquina a prazo, aí sim, não ia nunca ter dinheiro para comprar!".
Quando Vanilda diz que sempre tem um nené na família que está doente, ela está falando de família no sentido mais amplo, que inclui um leque quase infindável de primos, ex-cunhadas, sobrinhos, primos e assim adiante. Além de criar suas cinco filhas praticamente sozinha, pois enviuvou muito cedo, ela também já abrigou na sua casa uma longa lista de parentes. Apesar de reconhecer que tal generosidade limita sua capacidade de investir no futuro de suas próprias filhas (isto é, em escolas particulares ou cursos profissionalizantes para elas), mal consegue imaginar outra maneira de agir. Seu lema é explicitado no provérbio que ela mesma cita: "Onde come um Português, come dois três" − uma noção que parece muito próxima à filosofia das famílias descritas por Rapp. Mas Vanilda também reconhece que, quando ela esteve "na pior" − viúva, bóia-fria e analfabeta, com menos de 30 anos e quatro crianças para criar − quem ajudou ela no início eram muitas dessas pessoas a quem, hoje, ela retribui o favor.
Sua história sublinha o ponto que quero fazer aqui. Quando falamos de um possível desencontro entre a saúde individual e a saúde da família, de que família estamos falando? As camadas médias, pensando no bem do pequeno núcleo pai-filhos, tenderiam a cortar os elementos estranhos e potencialmente perturbadores. Reduzindo "a família" ao número mínimo de indivíduos, há muito mais chance de fazer coincidir "a saúde da família" com a "saúde dos indivíduos". Nas famílias pobres, por outro lado, parece que certas pessoas acabam sacrificando seus projetos individuais ou os de seu núcleo familiar para salvar indivíduos problemáticos da rede extensa de parentes. Assim, a relação indivíduo-família não pode ser pensada da mesma forma em todo lugar, pois a própria noção de família varia conforme a categoria social com qual estamos lidando.
2. Elementos analíticos para pensar a família: além da unidade doméstica
Qual é o arsenal teórico que pode nos ajudar a dar conta dessa variedade de noções de família? Talvez devamos começar fazendo uma distinção entre "família" e "unidade doméstica". Os censos do IBGE trabalham em geral com a unidade doméstica e, portanto, definem vida familiar a partir da moradia. Trata-se de uma visão limitada, no entanto, que não leva em consideração justamente a parte mais dinâmica das relações familiares − e que em geral extrapola em muito "a casa".
Muitos dos moradores de bairros pobres pensam não em termos de "casa", mas, sim, em termos de "pátio". Parece que num terreno, por pequeno que seja, sempre tem lugar para construir mais uma "puxada" − isto é uma peça ou uma meia-água para receber um amigo ou parente. A primeira moradia da maioria de jovens casais é uma peça construída no quintal dos pais ou sogros. Com filhos casando e descasando, pessoas mudando atrás de um novo emprego, ou simplesmente a incorporação de algum inquilino, a composição do pátio muda... Mas, seja qual for a relação formal, é comum que haja uma troca intensiva entre essas "casinhas" para a realização de tarefas domésticas. Quando uma mulher trabalha fora, por exemplo, as outras do pátio tendem a suprir sua parte na organização doméstica − fornecendo almoço quente para os sobrinhos, e supervisionando as brincadeiras dos filhos pequenos. A parte mais visível desse processo é o cuidar de crianças − o que leva a uma intensa "circulação de crianças", e a situação não tão incomum de um indivíduo ser criado por (o que ele próprio considera suas) duas ou três "mães" (ver Fonseca, 2002). Mas é também possível encontrar diversos núcleos familiares repartindo comida. Até os mais pobres, os que não têm geladeira, são capazes de chamar os outros moradores do pátio ou do beco para comerem juntos quando recebem a doação de uma carne ou outra comida que estraga (Jardim, 1998).
Nesses casos, é difícil definir exatamente quais são os limites da própria unidade doméstica.
Em suma, para qualquer intervenção (especialmente em grupos populares), seria fundamental verificar como as atividades do dia -a-dia envolvem uma rede que se estende no espaço para outras casas e até mesmo para outros bairros. Traçando as linhas de ajuda mútua, podemos melhor refletir sobre o que é, nessa instância, a "família" pertinente.
3. A dimensão temporal da família
Vimos que a rede familiar, aquela unidade relevante para qualquer trabalho de intervenção, se estende no espaço além das quatro paredes de uma casa. Seria importante agora lembrar que as relações familiares, sendo relativamente duradouras, seguem uma lógica que se estende no tempo através de diversas gerações e através de muitos anos. Isto é, as diferentes etapas de uma troca "mútua" nem sempre ocorrem no imediato. Por exemplo, um observador desavisado poderia considerar que aquela avó que assimilou no seu núcleo doméstico e arcou com as despesas dos primeiros netos está numa relação de mão-única, em que ela ajuda seu filho e neto sem receber nada em troca. No entanto, devemos lembrar que esta avó está marcando seu lugar na rede familiar, reforçando através de seu dom a obrigação que seus descendentes têm de cuidar dela anos mais tarde na velhice − justamente quando ela passa a ocupar o lado mais fraco da relação familiar. Não se trata de um cálculo consciente, nem de um investimento garantido, que sempre dê retorno. Entretanto, a lógica da rede extensa de família − a lógica do dom, como nos ensina Marcel Mauss (1974) − implica numa reciprocidade a longo prazo − uma reciprocidade que, contrariamente à lógica do contrato ou até mesmo de amizades fugazes, coloca uma fé difusa em um retorno eventual, em alguma data futura, por algum membro da rede implicada na dádiva original.
A idéia de "ciclo de vida" é subsidiária a essa discussão sobre a dimensão temporal das relações familiares. Antropólogos clássicos (ver Fortes, 1958) definiram três fases do que consideravam um universal núcleo familiar: formação inicial (em geral, por casamento), expansão (com nascimento dos filhos), e declínio (quando os filhos adultos saem para estabelecer seus próprios núcleos, e a velha geração é deixada com "o ninho vazio"). Nas últimas décadas, pesquisadores confirmaram que a trajetória de qualquer família é bem mais complicada do que isso (ver Bilac, 1978; Barros, 1987). Sabemos, por exemplo, que, especialmente em grupos populares, as etapas do ciclo doméstico não são nítidas. Muitas vezes o nascimento de netos precede o casamento dos seus pais ou a formação de um novo núcleo. Ainda mais, nessa época de desemprego, há uma tendência crescente em todas as classes para filhos adultos voltarem para a casa dos pais em momentos difíceis, seguindo um divórcio ou perda de emprego (ver Peixoto, 2004). Assim, hoje em dia, o ciclo familiar baseado na nuclearização das famílias não é nada evidente.
No entanto, mesmo que não exista um só padrão, é inegável que a maioria de núcleos domésticos "evoluem" com o tempo. Pais de 16 anos não têm as mesmas opções, não se comportam da mesma forma, não têm as mesmas expectativas que pais de 30 anos ou de 60 anos. Aqui, posso citar o exemplo de Dona Maria. Finda a adolescência, sem emprego ou companheiro fixo, ela não encontrava outra solução para o bem-estar de seus numerosos filhos, senão a colocação em diferentes famílias de criação. Dez anos mais tarde, ela se estabeleceu com um "homem trabalhador"[2] e, além de fazer uma nova família com ele, procurou trazer para seu convívio seus filhos mais velhos. O domingo que conheci Dona Maria, ela estava reunida no seu quintal com seis dos sete filhos (a maioria agora adulta), fazendo churrasco.
A trajetória de Dona Maria e seus filhos não é incomum. Se seu núcleo familiar fosse observado durante a primeira etapa de sua trajetória, apareceria uma dispersão aparentemente caótica dos membros. Seria o exemplo por excelência da "família desestruturada". Em outro momento, mais avançado, do ciclo doméstico, observamos Dona Maria confortavelmente instalada com seu companheiro em casa própria, fornecendo um lugar de encontro e ainda mais, uma âncora de identidade para os diferentes indivíduos de uma família ostensivamente "unida".
O profissional de saúde, realisticamente, tem apenas uma entrada para as famílias com as quais trabalha − uma entrada que comporta um lugar apenas (em geral, a casa) e um tempo (a atualidade). Entretanto, para interagir com os membros dessas famílias, que são envolvidos em relações que vão bem além do "aqui e agora", é necessário que fique atento às dinâmicas que extrapolam seu limitado campo de observação, acionando o arsenal teórico adequado.
Enfim, devemos lembrar que não há receita para definir os membros relevantes de uma rede familiar. Essa pode ou não incluir consangüíneos (ascendentes, descendentes, colaterais...), parentes por casamento (sogros, cunhados, com-cunhados, padrastos, enteados...), padrinhos e compadres (e não devemos esquecer que existem padrinhos em casa, de igreja, na família de santo, etc.), e simplesmente amigos que, depois de ter compartilhado uma experiência particularmente intensa, acabaram se sentindo membro da família...
Procurando uma definição operacional da vida familiar que dê conta desse vasto leque de possibilidades, preferimos falar de dinâmicas e relações familiares (antes do que de um modelo ou unidade familiar). Assim, definimos o laço familiar (antes do que o modelo familiar) como uma relação marcada pela identificação estreita e duradoura entre determinadas pessoas que reconhecem entre elas certos direitos e obrigações mútuos. Essa identificação pode ter origem em fatos alheios à vontade da pessoa (laços biológicos, territoriais), em alianças conscientes e desejadas (casamento, compadrio, adoção) ou em atividades realizadas em comum (compartilhar o cuidado de uma criança ou um ancião, por exemplo).
4. Repercussões metodológicas do recorte "modo de vida": a teoria da prática
Gostaria, agora, de adentrar uma outra faceta dessa discussão, inspirada no trabalho de Dytz (2004), sobre modo de vida − em particular, sobre as implicações metodológicas de uma abordagem centrada na questão de modo de vida.
Desde os anos 70, Pierre Bourdieu (1972), entre outros, nos previne contra abordagens analíticas focadas exclusivamente nos ideais − as representações normativas de uma sociedade. Na linha de investigação que ele inspirou, "a teoria da prática", pesquisadores insistem na relação dialética entre práticas e valores. Valores, nessa ótica, não seriam considerados como estanques, parados no tempo, nem algo externo que pudesse ser imposto em um grupo. Pelo contrário, valores seriam constantemente reconstruídos − modificados ou reatualizados, investidos de novo significado − através da prática de atores sociais agindo dentro de um contexto específico.
O problema é que muitas pesquisas são presas a uma visão jurídica da realidade. É como se bastasse constatar a lei, repertoriar as normas hegemônicas, e medir a realidade contra esse parâmetro. Seguindo esse enfoque "legalista", veríamos, no estudo da família, que certas pessoas se aproximam mais do ideal da família conjugal nuclear, e outras menos... e muito pouco além disso. É assim que, durante as primeiras gerações de estudo da família, os pobres eram vistos como "a massa amorfa" dos "sem-família"[3]. O modelo, antes de nos ajudar, agiria como camisa de força, nos impondo um tipo de viseira que impedisse uma melhor visão da realidade. Não veríamos, por exemplo, a atitude criativa dos atores − como alguns deles burlam ou brincam com a norma oficial, como criam normas alternativas... enfim, como, através de suas práticas cotidianas, estão constantemente renegociando e transformando valores.
Tal é a força da matriz jurídica em nossa socialização que, muitas vezes, é difícil para profissionais fazerem uma associação entre suas próprias práticas familiares e as teorias (da família). Chamada por um grupo de conselheiros tutelares a falar de "a família", confesso que fiquei perplexa quanto à questão de por onde começar. Queria a todo custo evitar soluções fáceis. Não queria apresentar modelos prontos − como se a realidade pudesse ser encaixada em algumas regras preestabelecidas. Só baixou a angústia quando me dei conta que a apresentação antropológica da família só faria sentido se começássemos a partir das famílias dos próprios conselheiros. Assim, pedi para eles sentarem em pequenos grupos e elaborar a árvore genealógica de algum voluntário entre eles.
O resultado, para mim, pelo menos, foi muito revelador. Em primeiro lugar, as pessoas descobriram que tinham muitas dúvidas sobre como definir a família. Já que o exercício era ligado ao seu desempenho enquanto conselheiros e a eventual necessidade de intervir em certas famílias de seus bairros, combinamos que deveriam incluir no esquema genealógico do voluntário todos os parentes que tivessem alguma relevância nas atividades do dia-a-dia ou nas cerimônias rituais de família (batismo, aniversário, formatura...). A partir disso, os conselheiros começaram a se dar conta que a realidade de suas famílias não cabia facilmente naqueles diagramas lineares. Lembro do caso de Seu Adão, um senhor com seus 50 anos que confessou timidamente que, conforme sua carteira de identidade, tinha pai, mas era de "mãe desconhecida". Como podia ser? Sua mãe tinha tido três companheiros − o primeiro com o qual casou legalmente, o segundo com o qual geriu Seu Adão, e o terceiro com quem viveu trinta anos. Foi esse terceiro que registrou Seu Adão como se fosse filho nato, mas na hora do registro, resolveram omitir o nome da mãe porque ela ainda era casada e tinha medo que seu marido legal − e portanto pai oficial da criança − reclamasse seus direitos paternos. Para Seu Adão, esse terceiro companheiro de sua mãe − o pai que o criou − era seu verdadeiro pai, mas o diagrama que tentava esboçar no papel parecia colocar em relevo apenas os laços de sangue e uniões oficiais.
Jailton, objeto voluntário de estudo de outro grupo, queria saber se incluía ou não no seu diagrama sua ex-esposa e o novo marido dela. Acontece que ele mesmo tinha se juntado três vezes, estando no momento numa fase solteira. Vivia, no entanto, no pátio de sua mãe, "a seis metros" da casa de sua segunda mulher. Esta era a mãe de seu único filho e continuou a dividir com a mãe de Jailton, os cuidados cotidianos da criança. Esta avó jurava que ela só reconhecia uma nora − a mãe de seu neto − e, morando lado a lado no pátio, continuaram a tomar chimarrão juntas toda a tarde. De certa forma, que Jailton quisesse ou não, sua ex-esposa permanecia um membro relevante de sua família.
Aqui, não há tempo para repertoriar todos os riquíssimos resultados desse exercício com os conselheiros, cujas histórias, sem dúvida não são tão diferentes das de muitos outros agentes de intervenção. Para mim foi fascinante. Havia de tudo -- árvores genealógicas viradas de pernas para o ar que incluíam a empregada doméstica e a professora de colégio; clãs italianos com repetidos casamentos entre primos; pais relapsos confessos, que negavam o laço de parentesco e recusavam a pagar a pensão alimentícia do filho nascido de uma relação passageira (algo bastante surpreendente para um conselheiro tutelar, eleito para promover os direitos da criança... e assim por diante. Havia de tudo, de fato, menos a simples e reduzida família conjugal nuclear tão badalada como norma hegemônica. E o mais interessante: nenhum dos voluntários considerava que vinha de uma "família desestruturada". Assim, a partir da experiência deles, passamos a pensar como existiam − além do ideal normativo − outros arranjos, outras possíveis estruturas familiares que pudessem ordenar as práticas e dar sentido à existência. Insisto que foi na observação cuidadosa das práticas − e, nesse caso, de suas próprias práticas − que esses profissionais passaram a sair da camisa de forço dos modelos jurídicos, e pensar as dinâmicas sociais em toda sua criatividade.
5. A arte de escutar: um processo reflexivo
Quero insistir que não é por acaso que, para introduzir as pessoas numa abordagem da prática, pedimos para elas pensarem suas próprias práticas. Afinal, essa auto-reflexão − a maneira de virar a lente analítica para a própria cultura, os próprios valores do observador já é parte integrante das ciências sociais hoje (ver, por exemplo, Geertz 1999). Barrando essa política, é muito fácil incorrer no raciocínio evolucionista da época colonial em que o pesquisador se considerava representante do mundo civilizado e todos os outros −os bárbaros e selvagens − eram "outros" a serem convertidos, salvos, ou simplesmente desenvolvidos. Isto é, eram tudo menos pessoas a serem escutadas, parceiros de diálogo, A idéia hoje é que, para o dialogar acontecer, para romper a distância cientificista entre observador e observado, devemos saber examinar as obviedades de nossa própria cultura. Assim, nós também nos tornamos objetos de pesquisa (Velho, 1978).
Confesso que − até realizar o exercício didático com os conselheiros, eu − tal com eles, sempre tinha tido a convicção de vir de uma família absolutamente padrão. Citava minha família − norte-americana e nuclear − como protótipo da família nuclear moderna, tudo conforme a norma hegemônica. Entretanto, quando embarquei no exercício e comecei a diagramar meus parentes relevantes... me dei conta de certas esquisitices. Minha mãe enviuvou cedo com duas crianças pequenas. Ela, que até então tinha sido dona de casa, foi obrigada a iniciar num emprego assalariado, colocando em pouco tempo seus dois filhos a contribuir para a renda familiar, com bicos de babá e jornaleiro. De caráter um tanto difícil, ela logo rompeu com os parentes de seu falecido marido, nos cortando − eu e meu irmão − de qualquer contato com o lado paterno da família. Depois de eu sair de casa, com 16 anos de idade, ela casou novamente, mas o casamento acabou em pouco tempo quando minha mãe, para prosseguir sua carreira de professora, mudou de cidade. Ela, então com 60 anos, conheceu Bill, meu padrasto, com quem nunca casou, mas com quem vive até hoje, depois de 20 e tantos anos. Eu poderia ter adquirido uma irmã nessa nova união de minha mãe, já que Bill tem, de seu primeiro e único casamento, uma filha um pouco mais moça do que eu − só que nunca a encontrei, pois minha mãe se nega a recebê-la em sua casa. Em compensação, apesar de eu nunca ter morado com eles, esse senhor passou a me chamar filha, e eu o considero um membro sumamente querido de minha família − lhe devendo uma gratidão impagável pela maneira em que cuidou da minha mãe, nesses últimos anos em que ela degringolou mental e fisicamente.
Considerando os detalhes dessa minha história, dou-me conta de que minha família é qualquer coisa menos "padrão" − e os fatores convencionais do modelo familiar − biologia e casamento − não são nem de longe os mais importantes na definição das relações mais relevantes. Porém, mais importante: pergunto-me como − com essa trajetória − nunca me ocorreu que eu poderia ser proveniente de uma família "desestruturada". A chave desse enigma, evidentemente, se remete em parte ao caráter − difícil, mas disciplinado e ético − de minha mãe. Não quero de forma alguma negar a agency dessa personagem. (Ela, inclusive, nos ensinou muito cedo a descartar qualquer etiqueta negativa que outros pudessem atribuir a nós − a, por exemplo, de "semi-órfãos") Mas creio que há outro motivo por minha rejeição de qualquer conotação de "desestruturada" ligada a minha própria família. É que "desestruturada" é uma palavra usada para descrever a família dos outros. Não simplesmente "outros", mas ainda por cima, pobres. É como se − numa espécie de lógica post ipso facto, uma pessoa bem sucedida, por definição, não poderia vir de uma família desestruturada.
Passando por esse tipo de filtro classista, conseguimos usar − para ricos e para pobres − termos diferentes, carregados de avaliações opostas, para descrever comportamentos muito semelhantes:
Ricos “escolhem” sua família Pobres “se submetem” à biologia
Maternidade assistida Controle de natalidade
Produção independente Mãe solteira
Família recomposta (divórcio e recasamento) Família desestruturada
É para evitar esse tipo de dualismo, para rechaçar uma perspectiva moralista que pressupõe muito mais do que devia, que a antropologia insiste no elemento (auto-) REFLEXIVO do olhar analítico.
6. Modo de vida: carência ou criatividade ?
Essa reflexividade não significa, contudo, que façamos abstração das diferenças de oportunidade, das desigualdades econômicas e sociais, entre um sujeito social e outro. As circunstâncias sócioêconomicas − que são em grande medida alheias à vontade individual − são parte de qualquer modo de vida. É importante lembrar que as condições objetivas de vida levam as pessoas a olhar o mundo de um angulo ou de outro. É uma coisa ter um salário fixo e um convênio de saúde que permitem o familiar de um doente se organizar por telefone com médicos e hospitais, com hora marcada. É outra coisa levantar às cinco da madrugada (ou passar a noite na fila) para pegar uma ficha de exame médico, ou esperar meses por um leito hospitalar que não sai. Essas circunstâncias obrigam as pessoas a se organizarem de forma diferente, acentuando certas prioridades, atenuando outras.
Penso mais uma vez no caso de Vanilda que acabou por cuidar de sua mãe durante os últimos anos de vida, fazendo o milagre de sustentar uma família de seis (além dela, três de suas filhas e a mãe) com uma renda de dois salários mínimos. A "Mãe Velha" − como chamavam a avó nessa família − sofria de uma forma aguda de dementia senil. Ela não somente ficou dependente economicamente da filha, como passou a ter comportamentos agressivos e auto-destrutivos, com sérios distúrbios de sono. Ninguém na casa de três peças dormia mais -- nem Vanilda que trabalhava das 8 da manhã até 6 da tarde, nem as filhas dela que, quando não estavam no colégio, se revezavam nos cuidados da avó. Vanilda, vendo que ela não conseguia aliviar o sofrimento da mãe, tentou repetidas vezes interná-la − nem que fosse para "dar um descanso" para suas filhas (que, a essas alturas, não encontravam mais um cantinho sossegado onde estudar). Mas, como podem imaginar, só veio a resposta que não havia vaga na rede hospitalar e que era a responsabilidade da família cuidar de seus membros. Quando a Mãe Velha passou, no meio do inverno gaúcho (num frio de menos 6 graus), a arrancar a roupa e se tocar para a rua, completamente pelada, Vanilda não teve dúvida. Resolveu deixá-la amarrada à cama durante as horas quando o resto da família tentava dormir -- mesmo sabendo que essa tática poderia ser vista por observadores externos como prova de extrema crueldade.
A experiência de Vanilda sublinha um último aspecto fundamental da relação entre saúde familiar e modo de vida: a demanda apresentada por cada família aos serviços públicos de saúde, isto é, ao Estado, varia muito conforme suas condições concretas de vida. Eu, por exemplo, não tive que recorrer ao Estado para cuidar da minha velha mãe pois ela já tem aposentadoria e convênios de saúde suficiente para garantir condições dignas de vida − e sem sobrecarregar os familiares dela. Vanilda, por outro lado, não teve outra escolha a não ser aceitar o encargo de cuidar pessoalmente de sua mãe. Ao mesmo tempo, procurava desesperadamente algum apoio público para ampará-la − da mesma forma que muitos de seus vizinhos procuravam apoio de algum serviço público para ajudar no tratamento de um filho dependente químico ou outro membros problemático da família. Infelizmente, Vanilda, tal como a maioria de seus vizinhos, só conseguiu parcos resultados.
Ironicamente, alguns políticos chegam a sugerir que as insuficiências do serviço de saúde pública devem ser resolvidas não com mais investimento no setor, mas com políticas sociais que "fortalecem" a família. A lógica que apresenta essas duas políticas − investimento nas famílias e investimento no serviço de saúde pública − como mutuamente excludentes é obviamente absurda. Mas o pior é que muitas vezes a noção − de que a família é o principal responsável pela saúde de seus membros − vem antes de qualquer política efetiva de “fortalecimento” familiar. Desse jeito, o acento na família arrisca ficar como nada mais do que uma máxima moralista − um alibi que desculpa a falta de empenho político num programa realmente integral de saúde.
Nessa negociação entre Estado e família pobre, o trabalhador de saúde − especialmente os agentes de saúde familiar − fica na posição incômoda de mediador. É sensível à lógica de ambos mundos. Conhece as limitações do sistema de saúde, e procura conter a demanda para garantir a qualidade de atendimento. Por outro lado, reconhece as limitações e necessidades das famílias. Seu desafio é caminhar nessa corda bamba sem resvalar inteiramente para um lado ou outro: isto é, zelar pela qualidade do sistema, sem encampar a lógica estatal que vê as famílias como culpadas por não assumir total responsabilidade de seus membros, que as rotula de "heterônimas", criticando suas demandas "exageradas" de ajuda.
Por fim, gostaria de voltar para a ideia de modo de vida, enfatizando como esse conceito evoluiu na própria história da antropologia. Não devemos esquecer que a disciplina de Antropologia iniciou no contexto colonialista do século XIX. O modo de vida dos indígenas da África, Ásia e das Américas era visto por uma primeira geração de observadores colonialistas como, na melhor das hipóteses, um fenômeno de interesse folclórico. Na maioria das vezes, no entanto, o modo de vida desses "outros" era avaliado de forma puramente negativa. Visto em termos de falta, de ausência de tudo que os colonialistas consideravam civilizado, o modo de vida destes "outros" acabou sendo colocado como prova de primitivismo. Não é por acaso que o diálogo de então, entre colonialista e colonizado, era praticamente inexistente.
Uma nova fase de pensamento antropológico inicia quando os antropólogos, liderados por Malinowski no início do século XX, passam a fazer pesquisa etnográfica de campo -- isto é, aprendem a língua dos "nativos", sentam com eles e trocam idéias. Ao escutar as pessoas discorrerem sobre seu próprio modo de vida, de repente uma série de práticas e crenças que antes pareciam ilógicas -- tradições curiosas ou mera superstição -- passam a soar bastante razoáveis. É com a pesquisa de campo que inicia-se também a fase reflexiva da antropologia em que, ao tornar o "exótico familiar", o pesquisador acaba por tornar o "familiar exótico". Isto é, em vez de automaticamente assumir a superioridade de seu modo de vida, ele coloca em perspectiva as crenças e práticas de sua própria civilização.
Voltando agora para Brasil dos dias atuais, é interessante como boa parte da literatura crítica falando de desigualdade no país (Castell 2000, por exemplo), lamenta a pobreza das análises sobre grupos populares -- análises essas que ignoram qualquer positividade nas formas de sociabilidade destes grupos, que descrevem suas práticas e maneira de pensar o mundo em termos absolutamente negativos, ou seja, em termos de falta, de carência. A proposta aqui é, pelo contrário, pensar o modo de vida como fenômeno histórico, fruto de determinadas circunstâncias econômicas e políticas, e que dê prova da criatividade de indivíduos agindo em sociedade. Quero insistir que essa perspectiva, evidente nas propostas de pesquisadores tais como Elsen e Althoff (2004) e Dytz (2004) , não é um acréscimo à ciência já existente. Representa algo revolucionário, uma reviravolta no senso comum, superando abordagens neo-colonialistas e apontando o caminho para um espaço de verdadeiro diálogo nos programas de intervenção.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O TERCEIRO SETOR E SUAS FASES


O terceiro setor é uma mistura de princípios públicos e privados e, portanto constitui um outro mecanismo redistribuidor de riqueza" O Terceiro Setor no Brasil passa a partir dos anos 90, a ganhar bastante força no cenário econômico do país. De um lado as empresas despertam para a responsabilidade que possuem com a sociedade na qual e para qual atua. Por outro lado na sociedade civil aflora um senso de cidadania e responsabilidade, transformado em ações de solidariedade e  voluntariado, cujo comportamento semelhante é cobrado das empresas privadas, uma vez que o setor público não dava conta de suas obrigações. Mas, até chegarmos a esse nível passamos por uma grande evolução que iremos dividir em fases a serem detalhadas seguir.

A 1ª Fase

Como já mencionado em módulos anteriores a maioria dos historiadores concordam que o nascimento do Terceiro Setor no Brasil se deu com a inauguração da Santa Casa de Misericórdia, primeira instituição filantrópica do país, instalada na antiga capitania de São Vicente, hoje cidade de São Paulo. Essa Instituição era administrada pela igreja católica que recebia as doações oriundas principalmente de Portugal e Espanha. Toda e qualquer doação era fiscalizada pela própria igreja que também as administrava.A rigor as doações se limitavam à área da saúde. Vale ressaltar também a contribuição social das Ordens religiosas das Carmelitas e dos Padres Beneditinos, principalmente no cuidado a crianças órfãs, idosos e doentes. Nessa época contribuição social era totalmente confundida com caridade e as doações eram chamadas de esmolas.

A 2ª Fase

Compreendida entre a década de 30 até a década de 60, coincide com o momento em que o país entrou na era da industrialização, cujas mudanças foram sentidas em todas as esferas sociais. As principais mudanças ocorreram em relação ao comportamento e estilo de vida das classes sociais mais elitizadas, que com a chegada dos produtos industrializados passaram a experimentar o consumismo, tornando assim o Estado mais rico, assim como a classe de industriais. O governo do Presidente Getúlio Vargas torna o Estado o único detentor do interesse público, quando edita em 1935, a “Lei Brasileira de regulamentação das regras para declaração de utilidade pública Federal”, que regulamentava os trabalhos das associações e fundações em exclusivamente social e desvinculado de qualquer tipo de interesse político ou econômico. Mas, a relação Estado versus assistência social somente foi consolidada em 1938 com a criação de um Conselho Nacional do Serviço Social. Nessa época cresce a atuação filantrópica da sociedade economicamente mais abastarda, representada pelos grandes comerciantes e industriais, que destinavam parte de seus lucros às instituições dirigidas na maioria das vezes por suas esposas.

A 3ª Fase

As décadas de 60 e 70 são marcadas por uma sociedade amedrontada com o cenário político repressor trazido pela ditadura militar. Muitas instituições sociais, principalmente as de trabalhos educacionais foram fechadas por serem caracterizadas como subversivas. Com medo da repressão muitas fecham suas portas, deixando desamparada uma parte representativa da sociedade. Por outro lado, alguns movimentos se aproveitam da sua condição de filantropia para organizar movimentos de luta por direitos, cidadania e liberdade. Nota-se uma luta que mescla a busca por melhores condições de vida com a busca por uma liberdade política.

A 4ª Fase

A partir dos anos 70 vemos nascer o período que muitos autores chamam de “embrião do Terceiro Setor”. A sociedade civil agora fortalecida une-se para se opor ao autoritarismo do Estado e começa a multiplicar o número de Organizações Não-Governamentais. A sociedade queria não somente reaver seus direitos suspensos no período militar, mas também exercer sua cidadania de forma plena, com ações de representações sociais mais abrangentes.
A 5ª Fase
A partir dos anos 90 os três setores da sociedade: privado, público e terceiro setor passam a desenvolver um tipo de relacionamento mais aproximado e até então inédito.Pela primeira vez o Estado reconhece as forças econômica e social do terceiro setor. O Estado passa a perceber que o Terceiro Setor desenvolveu um número significativo e interessante de estratégias diferenciadas para resolver velhos problemas sociais como fome, desemprego e analfabetismo e começa a atuar “copiando” tais estratégias. O setor privado enxerga o Terceiro Setor agora não somente como um canal promissor e merecedor de seus investimentos. As doações deixam de ser esmolas e passam a representar um capital investido, cujo retorno é líquido e certo.
Os problemas ambientais passam a configurar um novo meio de atuação social das empresas privadas, que pressionadas pela sociedade civil utilizam o Terceiro Setor para prestar contas com a sociedade da sua atuação é nessa época que indústrias de celulose, implementos agrícolas, indústrias químicas e refinarias fazem questão de explicitar seus balanços dando destaque ao montante destinado as ações de preservação da natureza como replantio de árvores, limpezas de rios e lagoas, criação e preservação de áreas de preservação ambiental, dentre outras ações desse nível. O encontro desses três setores é marcado por expressões hoje, bastante conhecidas por nós como: responsabilidade social, responsabilidade sócio-ambiental, parceria, ética e cidadania. Com a Lei do Voluntariado editada em 1998, no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso as ações dos trabalhos sociais passam a ser articuladas com os diversos ministérios da República, consolidando assim, a integração das ações das instituições do Terceiro Setor com os setores públicos do país.

A 6ª Fase

O ano de 2001 é decretado pela Organização das Nações Unidas – ONU como o ano internacional do voluntariado. Esse fato serve como inspiração para muitos movimentos de caráter socialmente responsáveis como o desenvolvimento de inúmeros projetos auto-sustentáveis e não mais as antigas ações geradoras de dependência entre as esferas da sociedade. As instituições passam a gerar seus próprios recursos com a fabricação e/ou venda de seus próprios produtos, não dependendo mais exclusivamente da boa vontade dos doadores. Passam a oferecer importantes serviços de excelente qualidade a sociedade em troca de apoio às suas causas. Em muitos países acontecem fóruns sociais para apresentar as ações desenvolvidas para o Terceiro Setor, bem como para apresentar à sociedade os animadores números gerados pelo setor. Diversas causas são agora defendidas e sustentadas pelas instituições sociais como a preservação ambiental, cultura, identidade racial e opção sexual. Seja qual for a causa o importante é que haja uma ética solidária.
Segundo o Sebrae de Minas gerais “a colaboração entre os três setores por meio de ações em parceria estabelece um novo espaço de pensar e agir às questões sociais. A parceria está representando a soma de esforços com o intuito de se alcançar interesses que sejam comuns. É o espaço do exercício da democracia que valoriza a co-responsabilidade dos cidadãos nos diferentes setores dos quais eles participam. Essa responsabilidade implica na alternativa de compor projetos capazes de enfrentar fatores tais como: a exclusão social, na destruição do meio ambiente, na explosão populacional, no crescimento do narcotráfico, das doenças, da pobreza, da falta de capacitação, do desemprego e permitir mobilizar recursos, meios, instrumentos e pessoas com capacidade e segurança de implementar trabalhos de interesse da humanidade”.

O Crescimento acentuado da população idosa

INTRODUÇÃO

O Crescimento acentuado da população idosa, que vem ocorrendo articulamente nos países em desenvolvimento como o Brasil, tem promovido mudanças marcantes do perfil demográficos desses países. Tal crescimento é decorrente da queda expressiva das taxas de mortalidades e da drástica redução das taxas de fecundidades verificadas nos últimos vinte anos, principalmente em centros urbanos. Estima-se que atualmente, a população de 60 anos é mais, no Brasil, esteja próxima de dez milhões de habitantes – entre as dez maiores populações de idoso do mundo.
Segundo Netto (2006, p.6), “o envelhecimento populacional traz um número enorme de implicações de ordem econômica, política e social”. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com base no Censo 2010 os idosos representam hoje cerca de 14,5 milhões de pessoas, 8,6% da população total do País.
De acordo com a Lei nacional, o instituto considera idosas as pessoas com 60 anos ou mais, mesmo limite de idade considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para os países em desenvolvimento. Mediante a tal números, pode-se dizer que O envelhecimento da população brasileira é reflexo do aumento da expectativa de vida, devido ao avanço no campo da saúde.
Um marco histórico no Cenário da saúde do Brasil foi a Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, que, juntamente com a participação de outros segmentos da sociedade civil organizada, como de profissional da área de saúde, permitiu uma reflexão aprofundada sobre a política Sanitária até então vigente. Sendo que a importante conquista foi ampliar a cobertura da assistência medica a toda população idosa brasileira, houve consenso em relação à necessidade da criação do Sistema Único de Saúde, o SUS, sob o autoridade de um só ministério e tendo como premissa que a saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado. (NETTO, 671)

“Em 4 de janeiro de 1994 foi aprovada a Lei 8.8842, que, pela primeira vez na história jurídico- constitucional do país, estabeleceu uma política Nacional, Estadual, do Distrito Federal e dos Municípios do idoso”. (Netto, 2006, p.671)
Os idosos, têm necessidades médicas e sociais diferenciadas dos outros cidadãos com menor idade, e por isso utilizar de forma mais ativa os serviços e equipamentos de saúde.


1 PROMOÇÃO A SAÚDE E PREVENÇÃO DE DOENÇAS E INCAPACIDADE: SEUS OBJETIVOS.

No final do sec. XX se formou um novo ramo da medicina para o atendimento ao idoso denominada de Geriatria, que vem como o objetivo principal de proporcionar um envelhecimento saudável.
A temporalidade da vida é indicativa da existência de um relógio biológico geneticamente determinado. Sendo assim, é preciso que haja uma manifestação por parte do setor público um padrão de atenção á saúde da população idosa que atualmente apresenta a necessidade de uma reformulação ao que diz respeito à assistência hospitalar e em muitos casos se faz necessário também a assistência asilar, ambas demonstram sua ineficiência ao tratar da saúde de uma pessoa idosa (NOVAES 2007, P.57)
Os objetivos básicos que devem fundamentar as ações de saúde para idosos são os de procurar mantê-los com o máximo de capacidade funcional e independência física e mental na comunidade e no seio de suas famílias. Para tanto, há de se oferecer alternativas que atendam às diferentes condições biológicas, psicológicas e sociais dos idosos, dentro de modelos assistências que tenham como base a atenção primaria à saúde, valorizando a promoção de saúde e prevenção de doenças e de incapacidades que acometem essas pessoas. (Netto, 2006, P. 678)
Segundo Wikipédia (2012, p.1). “A geriatria ou Medicina geriátrica é a especialidade medica voltada para o tratamento e a prevenção relacionada à incapacidade da pessoa idosa”. O conhecimento interligado dos aspectos clínicos e funcionais, assim como das necessidades médicos sociais, deve nortear os procedimentos de curto, médio e longo prazo de acordo com cada caso. (NETTO, 2006).
Pois, pessoas idosas têm com frequência. dificuldades para realizar exercícios aeróbios, mesmo que suaves como caminhar. Dor articular, fadiga, vertigens, dispneia, falta de equilíbrio podem ser fatores limitantes nestes casos. Considerados os mais adequados não apenas pela possibilidade de realização, mas também pelos seus importantes efeitos, incluindo a promoção de saúde cardiovascular (TAAFFE; GALVÃO; SHARMAN, 2007)
Esse tipo de promoção para idosos se mostra muito eficaz e seguro, mesmo para pessoas muito debilitadas e com muitas dificuldades. Assim, dada a existência de medidas de promoção a saúde no envelhecimento, torna-se indispensável estabelecer e provocar a implantação de ações de saúde para promover e manter o envelhecimento ativo.

2 ATENÇÃO MÉDICO-SOCIAL

Ainda, hoje, as práticas de saúde são de forma predominante focadas na assistência em vez da prevenção. Pois, entre os usuários, é comum que ocorra a procura pelos serviços e ações dos sistemas de saúde seja para a correção de um problema ou para o alívio de algum acometimento, e mais raramente para obter informações Na estrutura de uma rede de atenção médico-social a uma população idosa convém dividir, para maior compreensão, as possíveis intervenções medicas e sociais em programas e serviços (NETTO, 2006)
Conforme Netto (2006, 672), os programas são direcionados a toda comunidade, no que diz respeito aos atendimentos ao indivíduo e a família. Entre esses serviços, pode ser citado, à promoção da saúde da pessoa idosa, que se fundamenta nos princípios da saúde para todos da Organização Mundial de Saúde. Trata-se de um programa multifacetado que visa, o autocuidado, a integração social, atividade física, bons hábitos.
 “Com referência aos Serviços de saúde, o conceito básico que fundamenta sua estruturação é o de que ele deverá ajudar o idoso a viver em sua casa, em sua comunidade, desfrutando boa qualidade de via” (Netto, 2006, p.672

É importante salientar que apesar do esforço e da dedicação dos profissionais para compreender e lidar com as demandas médico-sociais das comunidades atendidas, a política de formação, capacitação e educação permanente de recursos humanos, porem continua sendo uma questão a ser aperfeiçoada (SOUSA E HAMANN, 2009).

3 SERVIÇOS SOCIAIS: SUBSÍDIO ECONÔMICO E AJUDA DOMICILIÁRIA

Atendendo então, às novas exigências, o Serviço Social na prática com o idoso, tem o desafio de conscientizar a população do verdadeiro papel do idoso, garantindo o seu lugar numa sociedade que passa por grandes transformações que estão focadas no avanço tecnológico, pelo qual, patrocinar a relação com a sua saúde e o seu bem-estar de modo geral
Um das formas de serviço sociais aos idosos é a ajuda domiciliária, que por sua eficácia, é considerada como de grande importância no que diz respeito aos pontos de vista econômico e social. Pois, nesse tipo de serviço está incluída assistência nas tarefas domésticas em geral e auxílio nas necessidades de saúde- ida a médicos ou compra de medicamentos, quando necessário.  (NETTO, 674).
Os idosos beneficiários desses serviços são os que vivem sós e apresentam alguma incapacidade, e por isso tem precisão de ajuda para realizar suas necessidade básicas.
“Pode-se afirmar que esse tipo de serviço constitui um dos pilares básicos de qualquer rede de atenção social, sendo ainda mais importante que se requisite outros idosos, em melhores condições de saúde para tais tarefas, proporcionando condições de comunicação e melhor compreensão dos problemas existentes entre esses indivíduos” (Netto, 2006,  P. 674)
Mediante a afirmação acima observa-se que de grande importância que o idoso adquira os conhecimentos necessários de seus direitos, como cidadão, para que ele possa cobrar da sociedade, tendo em vista preservação da sua dignidade no pleno exercício da sua cidadania, com ativa participação das atividades culturais, políticas, sociais e econômicas de acordo com o seus direitos.

4 CASA DE REPOUSO E ASILO

O surgimento de instituições para idosos juntamente com o número de asilos no Brasil vem crescendo a cada dia. As instituições asilares institui a modalidade mais antiga e universal de atenção ao idoso fora do seio familiar, mas têm como inconveniente acarretar ao isolamento e à ociosidade física e mental. Cuidar abrange afeto e disponibilidade emocional e física, como também condições materiais, financeiras e suporte do Estado (FARO, SOUZA, ARAUJO, 2014)
As casas de repouso e os asilos estabelecem alternativas de cuidados para aquelas pessoas idosas que apresentam situações estruturais mais fragilizadas e que são dependentes de auxilio para execução as tarefas básicas da vida cotidiana e que, por múltiplas razoes de ordens médico-sociais, não podem ser mantidas em suas casas. (NETTO, 2006).

“A transferência do próprio lar para um asilo ou casa de repouso é sempre um grande desafio para o idoso, pois se depara com uma transformação muitas vezes radical do seu estilo de vida. Muitos idosos encaram o processo de institucionalização como perda de liberdade, abandono pelos filhos, aproximação da morte, além da ansiedade quanto à condução do tratamento pelos funcionários” (faro, Souza e Araújo, 2014, p. 258)

Em geral, os asilos recebem pacientes debilitados com diferentes enfermidades e sem condições e que vivem sozinhos, devido aos seus familiares não podem garantir os cuidados, necessários na sua residência. Contudo, cabe lembrar que, muitas vezes, as casas de repousos e asilos cumprem a função de abrigo para o idoso excluído da sociedade e da família, abandonado e sem um lar fixo. E assim, torna-se o único ponto de referência para uma vida e um envelhecimento digno.

5 CENTRO DIA

Criados para os idosos que não apresentam incapacidades severas, esses centros garantem apoio sustentando às famílias, já que assumem os cuidados com o idoso por oito a dez horas diárias. As atividades neles desenvolvidas buscam, por meio do desenvolvimento de relações interpessoais entre os próprios idosos, realizar atividades sociais envolvendo jogos, terapia ocupacional, pratica- esportivas, passeios e alimentação (NETTO, 2006).
As atividades do centro dia, além de se constituírem em um poderoso veículo de estimulo e socialização do idoso, utilizam pouco pessoal e têm baixo custo de operação, além de aliviarem a enorme sobrecarga emocional dos familiares. Conforme o AFAI (2012) o fato do Centro Dia do Idoso não estar incluso nas Políticas Públicas, não haver uma regulamentação, não haver uma tipificação do que é este serviço, faz com que as Secretarias de Estado (Saúde, Assistência Social, entre outras) não reconheçam este tipo de equipamento
Ainda para AFAI (2012), as atividades realizadas no Centro-Dia promovem os estímulos as funções cognitivas e comportamentais dos idosos, além de amenizar o acrescentamento da demência e conservação das suas capacidades funcionais. Também estimula a convivência social e auxilia no relacionamento interpessoal, o que faz com o idoso se torne uma pessoa com mais ativa, atenta, comunicativa visando preservar a sua dignidade humana.

6 GRUPO COMUNITÁRIOS

Geralmente, quando um determinado grupo social quer se criar um fato, um evento ou uma situação para que a sociedade preste atenção na realidade do idoso a fim de buscar novas alternativas ou soluções para tornar a inclusão social do idoso um fato real é através de festas, bailes e outras atividades como forma de ressaltar a questão do envelhecimento e dar visibilidade ao segmento idoso, que vem crescendo rapidamente em nosso país e necessita da efetivação de políticas sociais de proteção à pessoa idosa que lhe garantam uma velhice com melhor qualidade.
 De acordo com Netto (2006) Esses Grupos comunitários tem de forma espontânea e ativa a pretensão a saúde física e mental, que agregam várias formas de atividades físicas, recreativas e culturais, artes plásticas, jogos e outras. Conseguir-se como isso auto- suficiência dos integrantes tanto individual quanto grupal.

7 SERVIÇO DE SAÚDE

Na atenção de Saúde aos idosos, o objetivo fundamental, como já foi referido, é evitar a incapacidade e a dependência nas atividades no seu cotidiano. Portanto, deve-se investigar as condições e as enfermidades responsáveis pela perda da sua autonomia.
Para isso ocorrer de forma organizada, os serviços de saúde devem assemelhar-se dos serviços sociais, se adornar de aparelhamento com funções associadas à rede de atenção médica e odontológica por níveis de complexidade crescente, incluindo a atenção primária à saúde na Unidade Básica de Saúde (UBS), o atendimento geriátrico ambulatorial, o atendimento domiciliário, o hospital dia geriátrico e a internação hospitalar com cuidados terciários especializados.
A UBS contando com a equipe interprofissional capacitada em gerontologia será então capaz de realizar um diagnóstico integral que inclua a avaliação psicossocial, médica e funcional. Somente essa praticada da natureza integral e permitirá oferecer à pessoa idosa o correto encaminhamento e a satisfação de suas necessidades de saúde. (Netto, 2006, P. 676).

É importante ressalvar a importância de a UBS está agregada com a comunidade a partir do contato com os familiares dos idosos, os acompanhantes, os cuidadores e as entidades e instituições de sua área de compreensão que encontrar-se presentes no desenvolvimento de ações com idosos. Pois, através de um planejamento conjunto, os recursos existentes em cada região podem ser utilizados em sua integral capacidade.

8 SERVIÇOS HOSPITALARES

Segundo Netto (2006, p.678). “em todo Brasil, os dados de internação e ocupação dos leitos hospitalares mostram que os idosos fazem uso dos recursos oferecidos pela rede hospitalar”. Com isso, é possível notar que sua proporção é relativamente maior se comparados com outros etários.


“O Brasil se mostra entre os dez países do mundo, com maior número de pessoas idosas. Sendo, assim, isso significa a necessidade de evidentes implicações para o setor de saúde. Portanto A estruturação de serviços e de programas de saúde no Brasil tem sido predominantemente orientada para problemas materno-infantis, cujas características são bem diferentes daquelas apresentadas pela população idosa. Os primeiros são geralmente de caráter agudo, de natureza infecciosa e carencial, e com desfechos que frequentemente oscilam entre recuperação (ou cura) e morte. Entre idosos, prevalecem tanto condições crônicas e progressivas com múltiplos fatores determinantes e associadas à incapacidade e perda de autonomia como agudas, com deterioração rápida se não prontamente tratadas” (Coelho Filho, 2000, p.2).
Frente ao envelhecimento da população, é preciso reformular os serviços de saúde, para que possam objetar o cuidado do idoso com intervenções em diferentes níveis de atenção e espaços institucionais, incluindo unidades de internamento, hospital-dia e centros para cuidado prolongado.
Sendo estes compostos de serviços para internamento de casos agudos geriátricos. A forma como se estruturam e se inserem no contexto da instituição hospitalar, e do sistema de saúde como um todo com o objetivo de oferecer uma melhor qualidade da atenção, otimização de recursos e garantia de maior acesso do idoso a recursos de diagnóstico e de tratamento (COELHO FILHO, 2000)
No entanto, de acordo com Netto (2006), é notório que nem todos os idosos vão precisar de internação, principalmente se a rede básica e os cuidados familiares e comunitários forem organizados. Mas deve ficar estabelecido, que quando as suas condições de saúde necessitarem de cuidados hospitalares específicos, a pessoa idosas possa ter o direito à assistência hospitalar adequada, a fim de garantir se os princípios do SUS de universalidade do acesso.

9 HOSPITAL DIA
         
 Os serviços hospitalares devem ter como meta oferecer várias formar de cuidados, inclusive as com menos custos, sendo a implantação de Hospital DIA, uma alternativa com a finalidade de completar a assistência hospitalar na atenção da saúde da pessoa idosa.
Segundo Netto (2006, p.679), “nos países onde a assistência médica, especialmente a geriatria, está devidamente organizada, os hospitais DIA surgiram e adquiriam importância capital por uma série de razões”. Sendo assim, pode- se definir o hospital dia geriátrico como local para tratamento médico, em especial de reabilitação e de manutenção do estado físico, além de investigação médica e cuidados de enfermagem e assistência social.
Em suma, descreve-se o hospital dia como um lugar no qual os pacientes usam uma parte resumida do seu tempo sob um cuidado terapêutico e no final da tarde regressam aos suas lares.
Portanto, essa modalidade de assistência médica deve ter a disposição de fornecer serviços diagnósticos e tratamento para pacientes que não têm recomendação cirúrgica ou necessidade de internação a longo prazo e/ou mesmo pelo curto período de 24 horas. (NETTO, 2006)
Por fim, conforme Netto (2006) é importante destacar e citar a diferença entre os objetivos do centro dia e os do hospital dia para a população idosa. O centro dia é proposto essencialmente para trabalhar os aspectos sociais do envelhecimento, como socialização, passeios e laborterapia, não sendo, portanto, fundamental à atenção médica, pessoal e equipamentos especiais, por sua vez, o hospital dia depende de uma equipe multidisciplinar e de equipe de apoio, principalmente na área de reabilitação.